Mapear tendências é sempre um desafio. Vai muito além de observar o que já está acontecendo e exige atenção aos sinais ainda difusos, aos movimentos que não se apresentam de forma explícita.
Nos últimos meses, li pesquisadores, artigos e estudos sobre comportamento, economia, cultura e mercado. Ler o jornal diariamente e observar o mundo também fazem parte desse exercício. O recorte aqui não é estético, mas comportamental. O foco não está no que surge como novidade, e sim no que tende a ganhar força ou se consolidar ao longo do ano.
De modo geral, o que emerge não aponta para o novo, mas para uma reorganização do que foi tensionado até o limite.
Evito citar fontes específicas porque estas leituras não nascem de um único ponto focal, mas de uma soma de olhares, análises e observações feitas por muitas pessoas antes de mim.
1. Imperfeição como evidência de humanidade ✏️
À medida que as inteligências artificiais produzem resultados tecnicamente impecáveis, o suposto “erro visível” passa a funcionar como prova de autoria. A imperfeição deixa de ser falha e passa a ser linguagem. Não como estética forçada, mas como consequência natural de processos humanos reais.
O "made by human” ganha valor justamente por carregar marcas do tempo, do gesto e do limite humano. Aqui entra o conceito de wabi-sabi, uma visão estética e filosófica japonesa que valoriza o imperfeito, o incompleto e o transitório. O wabi-sabi não busca corrigir o erro, mas reconhecê-lo como parte da beleza. Em um mundo de perfeição artificial e repetível, o imperfeito passa a ser sinal de verdade, presença e autoria.
2. Coerência substitui o discurso 👀
Depois de anos em que propósito virou linguagem ornamental, a fratura entre discurso e prática se tornou evidente. Narrativas bonitas, mas vazias de evidência, perderam força. Marcas, organizações e indivíduos que sustentaram discursos sem lastro passam a ser lidos com desconfiança.
Coerência deixa de ser atributo aspiracional e se torna critério básico de legitimidade. O que não se sustenta na prática perde valor simbólico rapidamente. Não é mais sobre o que se diz, mas sobre o que se sustenta ao longo do tempo.
3. Ser atleta é o novo normal 🏃🏽♂️
O crescimento do esporte e do estilo de vida associado a ele vai além da saúde. Responde a uma necessidade de reconexão física em um mundo excessivamente mediado por telas. O corpo deixa de ser apenas imagem e volta a ser experiência.
Treinar, correr, suar e sentir tornam-se contrapontos diretos à abstração digital. Os hábitos da vida de um atleta, como disciplina, rotina, alimentação e descanso, passam a integrar o cotidiano de quem busca viver mais e melhor. A Copa do Mundo e o fortalecimento de outros esportes ajudam a amplificar esse imaginário.
4. Revalorização dos sentidos não visuais 👋🏽
O predomínio da imagem gera cansaço perceptivo e dificulta distinguir o que é real do que é artificial. Experiências táteis, sonoras e espaciais ganham relevância justamente por escaparem da lógica da reprodução infinita.
O corpo inteiro volta a ser acionado como critério de verdade. Tocar, ouvir, sentir peso, textura e temperatura passa a ser uma forma de validar o que é real em um ambiente saturado de simulações.
5. Chancela de volta 🎖️
Em um ambiente saturado de informação, o valor deixa de estar no acesso e passa a estar na responsabilidade. Quando todos podem falar, quem assina assume risco. Chancelar deixa de ser vaidade e passa a ser compromisso público.
Autoridade deixa de ser construída por volume ou frequência e passa a ser sustentada por trajetória, repertório e consistência histórica. Por isso, veículos de comunicação, consultorias, autores, pesquisadores e estudiosos tendem a ganhar ainda mais valor.
6. Tempo é o novo luxo ⏰
A última década transformou produtividade em virtude moral. Estar ocupado virou sinônimo de valor, enquanto o cansaço passou a ser normalizado e, em muitos casos, celebrado. O resultado é um esgotamento generalizado, físico e mental, que deixou de ser exceção e se tornou regra.
Em 2026, o tempo deixa de ser tratado como algo a ser otimizado e passa a ser defendido como algo a ser preservado. Se, conceitualmente, o tempo é a única coisa que não pode ser comprada, o mercado de luxo percebeu que, para continuar relevante, precisava deslocar seu foco. Não basta oferecer objetos ou status. É preciso oferecer margem, autonomia e escolha. Ter controle sobre a própria agenda passa a ser símbolo claro de privilégio.
7. Reabilitação da fricção 🧩
Durante anos, design e comunicação buscaram eliminar qualquer forma de atrito. O resultado foi uma homogeneização estética e simbólica. Em 2026, a fricção retorna como elemento de identidade.
Ambientes menos lisos, produções mais complexas, objetos com textura e processos menos imediatos ganham valor. Onde há resistência, há singularidade. Onde tudo é fácil demais, nada permanece.
8. Local como afirmação, não como nostalgia 🌎
Em um cenário geopolítico instável e culturalmente tensionado, a valorização do local surge como mecanismo de afirmação identitária. Não é fechamento, mas enraizamento.
Esse movimento se intensifica em um mundo cada vez mais próximo do chamado G-Zero. O termo, cunhado por Ian Bremmer, descreve um cenário global sem uma superpotência dominante capaz de liderar ou coordenar respostas coletivas. Estados Unidos, China e outras potências priorizam interesses internos, gerando fragmentação, instabilidade e baixa cooperação internacional.
Nesse contexto, países, regiões e cidades sentem a necessidade de se afirmar cultural, política e simbolicamente. Origem deixa de ser detalhe estético e passa a ser posicionamento.
9. Regeneração emocional 🥹
Não se trata mais de autocuidado como hábito individual, mas de regeneração como necessidade estrutural. Ambientes, produtos, conteúdos e experiências passam a ser avaliados pela capacidade de reduzir carga mental e emocional.
A lógica do estímulo constante dá lugar à contenção, ao silêncio e ao cuidado. Não é fuga do mundo, mas uma tentativa consciente de permanecer nele sem colapsar.
10. Deslocamento da IA para a infraestrutura 💻
A inteligência artificial perde o caráter performático e passa a operar de forma mais silenciosa e estrutural. O valor não está em mostrar que se usa IA, mas em integrá-la profundamente aos processos.
A IA deixa de ser espetáculo e volta a ser ferramenta. Invisível, mas decisiva para eficiência, escala e profundidade.
11. Resposta à saturação informacional 🫨
O problema não é mais acesso à informação, mas excesso dela. Valor passa a ser atribuído a quem consegue organizar, contextualizar e interpretar sem simplificar demais.
Leitura de mundo vira ativo. Curadoria consistente substitui volume. Entender passa a valer mais do que informar.
12. Ascensão da estética latina como linguagem cultural 🎊
Mais do que uma questão geográfica, trata-se de um deslocamento simbólico. Corpo, emoção, cor, contraste e imperfeição ganham espaço em um cenário antes dominado pela neutralidade.
Com a Europa enfraquecida e os Estados Unidos em crise de liderança, a América Latina passa a ocupar um lugar de destaque global, especialmente no campo estético e cultural. Não é moda, é reposicionamento.
13. Reconfiguração das comunidades 🫂
O desgaste das grandes redes e da lógica de alcance infinito abre espaço para comunidades menores, mais locais e mais comprometidas. Comunidade deixa de ser audiência e volta a ser relação.
Esse movimento se fortalece especialmente a partir dos encontros presenciais. Jantares, clubes, corridas em grupo, eventos pequenos e rodas de conversa ganham ainda mais valor justamente por exigirem presença, tempo e envolvimento real. Menos gente, mais troca. Menos alcance, mais densidade.
14. Consumo repensado 💰
A lógica da substituição constante perde força diante de crises ambientais, econômicas e simbólicas. Valor passa a ser associado à durabilidade, manutenção e relação continuada.
Consumir deixa de ser ato isolado e passa a ser vínculo. Menos consumo orientado por microtendências e mais por aquilo que atravessa o tempo.
15. Marcas que conversam 💬
Mais do que nunca, 2026 exigirá que as marcas consigam sustentar conversas reais com as pessoas. Não se trata apenas de emitir mensagens, mas de participar das discussões culturais, sociais e simbólicas do seu tempo.
Esse movimento se manifesta nas mídias, no presencial e nas campanhas globalizadas. Comentários deixam de ser apêndice e passam a ser extensão do conteúdo. Muitas vezes, tornam-se o próprio conteúdo. É nesse espaço que a marca se mostra mais humana, mais próxima e menos institucional. Conversar deixa de ser risco e passa a ser requisito.
Se você chegou até aqui, obrigado pela companhia.
Poderiam existir muitas outras leituras possíveis. O mundo oferece sinais demais para qualquer tentativa de síntese definitiva. As que aparecem aqui são aquelas que se mostram mais consistentes, menos reativas e mais conectadas com movimentos estruturais já em curso. São leituras do presente levadas às últimas consequências. Ignorar esses movimentos, neste momento, já não parece uma opção.



