Acredito que eu nunca me apaixonei por publicidade. Eu sempre fui publicitário. Essa relação não teve um ponto de partida claro, ela simplesmente nasceu comigo.
Ainda muito pequeno, criei um jornal em casa chamado A Hora da Virada. Tinha colunistas e anunciantes, todos amigos e familiares. O jornal repercutia as notícias do meu mundo, que basicamente era o sítio onde sempre moramos e, eventualmente, algum acontecimento fora dele. Minha alegria estava em organizá-lo, vê-lo impresso e entregá-lo aos meus assinantes.
Também muito cedo, aos nove anos, lancei, sem qualquer pretensão, mas como consequência natural da provocação de um tema de casa, um livro na Feira do Livro de Porto Alegre, minha cidade natal. O livro, chamado Diário de uma Cavalgada, contava a história, em forma de diário, da primeira grande cavalgada que fiz ao lado do meu pai.
Depois disso, comecei a me aventurar de forma mais prática pelo mundo da criação. Inicialmente criando para minha família e, aos poucos, para amigos e amigos dos amigos. Logos, peças gráficas, sites e tudo o que estivesse ao meu alcance. Nunca com a intenção de competir com alguém ou ocupar um espaço no mercado. Eu fazia porque gostava, porque fazia sentido para mim.
Esse caminho fez com que, desde muito cedo, eu tivesse apenas uma opção de faculdade em mente: Publicidade e Propaganda. Antes disso, considerei ser veterinário, motivado pela minha relação com cachorros e cavalos e pelo exemplo dos meus avôs, um veterinário formado e outro autodidata, que fundou a primeira loja veterinária de Porto Alegre.
Essa vocação pela publicidade sempre veio acompanhada de um impulso empreendedor, claramente influenciado pelos exemplos dentro de casa, pelos meus pais, e pelas histórias que ouvi desde cedo sobre meu avô. Além disso, eu tinha referências criativas muito próximas. Meu tio Tiago, publicitário, meu tio Alexandre, arquiteto, e minha prima Patrícia, artista e estudante de design. Três mentes criativas que ajudaram a moldar o profissional que eu viria a me tornar.
Tudo isso me levou à faculdade, na ESPM, já com uma empresa em funcionamento. Entre muitas experiências e depois do primeiro negócio, no dia 27 de abril de 2017 iniciei a A27. Ainda muito jovem, mas com a convicção de que era possível fazer algo diferente.
Não foi fácil. Quem confiaria em alguém tão jovem, sem um grande portfólio e sem passagem por grandes agências. Depois de algumas sociedades, de muitas pessoas que passaram pela equipe e de aprendizados importantes, inclusive com a participação da minha irmã e de amigos próximos, ficou claro que a A27 precisava ser um estúdio criativo, focado na criação e gestão de marcas. Um caminho muito mais próximo do design do que da publicidade tradicional.
Fomos muito felizes nesse percurso. Tive a oportunidade de trabalhar, visitar e aprender com empresas de diferentes tamanhos. Participamos do início de startups, ajudando na formulação de negócios, e também atuamos com grandes grupos, como a Arezzo&Co. Também nesse caminho, vivenciamos o mercado de luxo com o Kurotel e a criação e gestão de marcas para empresas que, mais tarde, foram vendidas, muito pela valorização do negócio construída por meio de uma marca bem estruturada. Ao longo desses anos, gerenciei times de marketing internos e coordenei diversos fornecedores, entendendo a comunicação de dentro para fora.
Criamos a PIRA27, uma plataforma de conteúdo e agora, Instituto, voltada à arte e à cultura, que conduzo ao lado de Emanuel de Aquino, meu sócio em toda a A27, com profundidade, rigor e compromisso real com a entrega cultural ao Brasil. Criamos também a ENTER27, nosso núcleo de pesquisa, em parceria com as professoras e doutoras Fernanda Momo e Giovana Schiavi. Esses movimentos ampliaram nosso ecossistema, aprofundaram nossos projetos e nos permitiram impactar o mercado de forma mais consistente.
Mesmo vivendo um momento muito mais próximo do design do que da publicidade, nunca me afastei do mercado publicitário. Acompanhei de perto os movimentos das grandes agências, observei campanhas semanalmente e li muito sobre o setor. Ainda assim, eu não estava realizado.
Escrevi diversas vezes na PIRA27 sobre minhas críticas ao mercado publicitário, especialmente ao brasileiro, e me sentia incapaz de transformá-lo. Até entender que esse sentimento não era frustração, mas responsabilidade.
Chegou o momento. Não como uma utopia solta ou um sonho desestruturado, mas como um projeto pensado, organizado e maduro. Um novo momento que prioriza o conteúdo antes da forma, sem abrir mão da primazia do craft, algo que sempre nos definiu.
O nosso mercado perdeu profundidade cultural, deixou de contar histórias e de conversar com as pessoas. Passou a reproduzir fórmulas, a buscar volume e a valorizar mais a forma do que o conteúdo. Queremos tentar fazer diferente. Para isso, pedimos licença e confiança às empresas.
Não deixarei de trabalhar com elas. Pelo contrário, seguirei trabalhando com marcas e branding, agora de forma ainda mais estratégica e responsável, potencializando esse trabalho para que a A27 faça ainda mais a diferença.
Para minha alegria, esse novo momento nasce com a chegada de dois novos sócios: Rafael Mies e Lucas Pares. Dois profissionais experientes, qualificados e com trajetórias que ampliam a nossa capacidade de pensar, criar e entregar. A chegada deles concretiza a fusão da Bongô com a A27, mas representa mais do que uma união de estruturas, clientes ou operações. É o encontro de visões complementares sobre comunicação, mercado e futuro.
Este movimento nasce de um alinhamento profundo. Não apenas sobre o que queremos construir como agência, mas sobre o tipo de parceiro que queremos ser para os nossos clientes. Uma agência capaz de unir visão criativa, inteligência de marca, estrutura de atendimento, capacidade operacional e leitura de mercado. Uma agência que cresce sem abandonar sua essência, mas justamente porque entende que essência também precisa de coragem para evoluir.
Ele também marca uma importante reestruturação do nosso time, com a chegada de novas lideranças, como Ethiene Tamborelli, à frente do relacionamento com clientes, e Gabriel Silveira, na gestão de comunidade e conteúdo.
A partir daqui, fazemos isso como aquilo que sempre soubemos ser: uma agência improvável. De volta ao lugar onde estratégia, conteúdo, craft e negócio se encontram. Improvável porque não queremos fazer mais do mesmo, mas construir histórias únicas, memoráveis e ainda não realizadas. Não para repetir o mercado, mas para tensioná-lo com critério, profundidade e responsabilidade.
Depois de quase uma década, chegou a hora da virada. Da nossa virada. E, se você permitir, da virada da sua empresa.




