No ar mais uma edição do Boletim Pirado. Confira a melhor curadoria de conteúdos culturais. Tudo destrinchado especialmente para você!
A infame banana de Maurizio Cattelan desapareceu. De Novo 🍌
Onde? Artnet 📰
Quando? 01/06/2025 📅A banana da obra Comedian (2019), de Maurizio Cattelan, sumiu mais uma vez. Desta vez do Centre Pompidou-Metz, na França. É a segunda ocorrência do gênero no mesmo museu. No verão passado, um visitante arrancou a banana da parede, descascou e comeu. Desta vez, ninguém viu o momento do furto. Os seguranças simplesmente perceberam a ausência da fruta por volta das 14h de um sábado. O museu repôs a banana rapidamente (o próprio protocolo da obra prevê a troca a cada poucos dias), mas, diferentemente do episódio anterior, decidiu registrar queixa formal nas autoridades.
A história tem uma longa genealogia. Desde a estreia da obra na Art Basel Miami Beach em 2019, já houve pelo menos quatro casos de pessoas comendo a banana, incluindo um estudante de arte em Seul e o bilionário cripto Justin Sun, que a devorou após comprá-la por US$ 6,2 milhões em 2024. O museu frisou que nenhum dano irreversível foi causado, já que o valor da obra reside em seu certificado de autenticidade e no protocolo de apresentação, não na fruta em si. O ladrão, porém, continua desconhecido.
A arte e a invenção do homossexual 🌈
Onde? Apollo Magazine 📰
Quando? 01/06/2025 📅Antes de 1869, quando o escritor Karl Maria Kertbeny cunhou os termos homossexual e heterossexual, não existia o conceito de identidade sexual como conhecemos hoje. Uma exposição chamada The First Homosexuals parte desse marco para investigar como a arte registrou e ajudou a construir novas formas de reconhecimento da sexualidade.
Em cartaz no Museu das Belas Artes da Basileia, na Suíça, a mostra reúne representações do desejo entre pessoas do mesmo sexo, do período pré-homossexual até o surgimento de uma identidade mais consciente no fim do século XIX e início do XX. Entre os destaques estão The Bath House (1496), de Albrecht Dürer, e um filme dos irmãos Lumière que registra uma performance drag.
Desenhos recém-descobertos de John Lennon fazem sua estreia pública ✏️
Onde? Artnet 📰
Quando? 04/06/2025 📅Cerca de 240 desenhos de John Lennon estão sendo exibidos ao público pela primeira vez no Liverpool Beatles Museum. As obras foram criadas em colaboração com o artista Stephen Verona em 1964, a partir de um encontro casual em um clube londrino, quando os dois começaram a rabiscar espontaneamente na toalha de papel de uma mesa. Cada desenho traz uma palavra da música I Feel Fine e juntos formam um curta-metragem de dois minutos, considerado o primeiro videoclipe da história.
Verona ficou com os desenhos. Em 2000, ele os leiloou em Nova York e o conjunto acabou sendo disperso. Os desenhos reapareceram recentemente em um leilão em Londres, onde foram identificados pelo colecionador Joseph Robert O’Donnell, que reconheceu sua importância e os reuniu novamente para a exposição atual.
Os JPEGs transformaram o mercado de arte — foi para melhor? 💻
Onde? Financial Times 📰
Quando? 09/06/2025 📅Antes da era digital, negociar arte dependia de transparências coloridas que viajavam de barco entre continentes. A virada aconteceu por volta de 2000, quando o formato JPEG se tornou o padrão de circulação de imagens. Galeristas passaram a enviar obras para clientes em segundos. O mercado ganhou velocidade, alcance global e clientes cada vez mais confortáveis em comprar sem ver a obra pessoalmente.
As feiras também mudaram, com previews digitais enviados antes mesmo da abertura, esvaziando a experiência presencial e eliminando o elemento surpresa. A circulação facilitada das imagens trouxe novos desafios, como dificuldades na rastreabilidade e na autenticação das obras. Galeristas relatam casos de obras confundidas com outras de mesmo título. Ao mesmo tempo, plataformas digitais ampliaram a transparência dos preços ao reunir dados de leilões.
O Paradoxo da Copa do Mundo 🌎
Onde? The Economist 📰
Quando? 10/06/2025 📅A Copa do Mundo de 2026, cuja final acontece nos arredores de Nova York, reúne bilhões de espectadores em torno de um único evento, o que poderia sugerir que o entretenimento global nunca foi tão unificado e que os Estados Unidos continuam sendo a superpotência do soft power. As duas conclusões estariam erradas. Abaixo da camada das superestrelas e franquias globais, o entretenimento está se fragmentando rapidamente. As paradas musicais estão ficando cada vez mais locais. No Brasil, 96 dos 100 artistas mais ouvidos são brasileiros. A participação norte-americana nas produções originais de streaming caiu de 70% para 36% em seis anos. No YouTube, três quartos dos vídeos que entram em trending aparecem em apenas um país. No mercado de games móveis, nenhum aplicativo aparece no top dez de todos os cinco maiores mercados simultaneamente.
A explicação está em dois fatores convergentes: a produção de conteúdo ficou tão barata que agora é lucrativo criar entretenimento para nichos pequenos e locais, e os algoritmos de recomendação acabam reforçando preferências regionais tanto quanto criam hits globais. Uma classe média global maior tornou viável para a Netflix produzir séries caras para o México, ou para desenvolvedores adaptarem jogos ao universo de Bollywood. O resultado é que o monopólio cultural dos EUA, que por décadas exportou valores e estilos de vida junto com filmes, músicas e séries, está acabando. O Brasil lidera em música, a Coreia do Sul em televisão, a China em games. Os olhos do mundo estarão em solo americano para a final da Copa, mas é um país em declínio num jogo de soft power que acaba de começar.
O homem que roubou os deuses⚱️
Onde? Financial Times 📰
Quando? 10/06/2025 📅O negociante de arte Douglas Latchford chegou ao Sudeste Asiático ainda jovem e passou décadas saqueando sítios arqueológicos cambojanos. Retirava estátuas de deuses hindus, budas e figuras celestiais de templos khmer para vendê-las a colecionadores ricos e grandes museus. Construiu sua reputação como especialista, publicando livros ilustrados com as próprias peças roubadas e fazendo doações estratégicas a instituições de prestígio. Passou seus últimos anos em um apartamento de luxo em Bangkok, cercado por obras que ele mesmo avaliava em até US$ 180 milhões.
Sua história está em O Homem que Roubou os Deuses, de Matthew Campbell. Mais que a biografia de um criminoso, o livro expõe o ecossistema que tornou tudo possível, como a cegueira voluntária de curadores e casas de leilão, os ex-soldados que cruzavam campos minados atrás das peças e os bilionários cujos decoradores usavam o material saqueado para enfeitar mansões. Atualmente, milhares de obras saqueadas do Iraque, da Síria, do Sudão e da Ucrânia seguem desaparecidas. Para Campbell esse comércio continua por uma razão: demanda.
Cientistas franceses desenvolveram uma nova tecnologia para ajudar a identificar obras de arte falsas 🔍
Onde? ARTnews 📰
Quando? 11/06/2025 📅Pesquisadores da Universidade Politécnica de Hauts-de-France, desenvolveram um método não invasivo para autenticar obras de arte a partir da análise da textura e do relevo das pinceladas. Com scanners de alta resolução, a técnica mapeia padrões da superfície da pintura e funciona como uma espécie de impressão digital do artista, identificando detalhes imperceptíveis a olho nu.
O método foi testado em nove pinturas de Van Gogh e aplicado a dois casos reais. O sistema identificou corretamente uma falsificação conhecida e confirmou características presentes em Pôr do Sol em Montmajour (1888), autenticado pelo Museu Van Gogh em 2013. Os pesquisadores afirmam que a tecnologia não substitui o olhar de críticos e historiadores, mas oferece uma ferramenta complementar baseada em dados objetivos.
David Hockney, artista que restaurou a forma humana à arte, morre aos 88 anos 🖤
Onde? The New York Times 📰
Quando? 12/06/2025 📅David Hockney, artista inglês que devolveu a figura humana ao centro da arte em uma época dominada pela abstração, morreu aos 88 anos, em Londres. Com seu estilo visual marcante, cabelo louro e roupas coloridas, tornou-se um dos artistas mais influentes de sua geração. Viveu boa parte de seus anos em Los Angeles, cidade que retratou como ninguém em suas célebres pinturas de piscinas e cenas da vida ensolarada do sul da Califórnia. Também foi um dos primeiros artistas populares do seu tempo a tratar abertamente da homossexualidade em sua obra e a se posicionar contra a censura a imagens gays.
Manteve uma produção prodigiosa por mais de seis décadas, experimentando constantemente novos meios, como fotografia, colagens, fotocópias, fax, computação gráfica e, mais tarde, desenhos digitais no iPad. Criou retratos duplos psicologicamente agudos, além de cenografias muito elogiadas para teatro e ópera. Mesmo debilitado e em cadeira de rodas, continuou pintando até o fim.
Por que todo mundo está fumando de repente? 🚬
Onde? Der Spiegel 📰
Quando? 13/06/2025 📅Depois de duas décadas de declínio, o cigarro voltou. E quem está puxando o movimento é justamente a Geração Z, a mesma que cresceu com campanhas antitabaco. O estopim cultural mais visível foi o brat summer de Charli xcx em 2024, que declarou guerra à estética clean girl em nome do hedonismo sem filtro. Na prática, isso virou tendência. Charli xcx e Dua Lipa distribuíram cigarros em bandejas de prata nos seus casamentos na Sicília, Kylie Jenner fumou na capa da Vanity Fair, e memes de cigarro inundam as redes. Séries como The Bear normalizaram o fumo na tela sem nenhum julgamento moral.
Uma organização antitabaco registrou em 2025 que o número de cenas com cigarros em filmes e séries norte-americanas bateu recordes. A estética dos anos 90 também voltou com força, e ela vem com cigarros incluídos. Mas o que está por trás do fenômeno vai além da nostalgia. Para muitos jovens, fumar é um gesto de rebeldia contra a obsessão com saúde e autocontrole. O cigarro é também, paradoxalmente, um símbolo de desconexão. Em uma geração saturada de smartphones, ele representa um ritual lento, tátil, sem notificações. Por fim, fica aqui o nosso recado: não fume, cuide da sua saúde :)
Brasil abraça a empregada doméstica como inspiração para a arte 🇧🇷
Onde? El País 📰
Quando? 15/06/2025 📅Uma exposição, um documentário e um livro convergem para colocar no centro do debate cultural brasileiro uma categoria profissional de seis milhões de trabalhadoras, em sua maioria mulheres negras. A exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, homenageia uma pioneira que desde os anos 1930 defendeu que o trabalho doméstico fosse profissionalizado. A mostra percorre sua vida e a luta por direitos.
No mesmo espírito, o documentário Aqui não entra luz, de Karol Maia, investiga a arquitetura do quarto de empregada. Filha de uma trabalhadora doméstica, a diretora propõe uma reflexão sobre o papel dessas profissionais na manutenção das desigualdades sociais. Já o livro Quirinas, de Mariana Filgueiras, investiga por que uma das maiores categorias profissionais do Brasil historicamente teve presença tão escassa na literatura.












