O que importa mais, como você venceu ou ter vencido? 🏆
Um conflito de visões na história do futebol argentino.
A Copa do Mundo de 2026 está chegando ao final. A primeira realizada em três países diferentes. A primeira com 48 seleções. E a primeira com a participação de Cabo Verde, Jordânia, Uzbequistão e Curaçao.
Mas essa edição também reservou um ineditismo ao país da atual campeã. Do total de treinadores da competição, seis foram argentinos. Um recorde para uma mesma nação.
Ao passo que pela primeira vez a competição não contou com treinadores brasileiros, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Equador, Estados Unidos e a própria albiceleste foram comandados por um técnico argentino. Em 2022, eram 3 treinadores do país vizinho, e em 2018, 4.
Em virtude desse acontecimento, trago uma breve história de como o futebol argentino foi dividido por duas ideologias diferentes: menottismo e bilardismo.

Antecedentes históricos: La Nuestra e Antifútbol ⚽
O futebol chegou à Argentina no final do século XIX, trazido por ingleses e fortemente impregnado por valores como a força física, o jogo direto e a valorização do fair play. Contudo, à medida que o esporte se popularizou, o rígido e físico modelo britânico foi sendo rejeitado.
Os jogadores locais desenvolveram um estilo muito mais focado na habilidade e na sensualidade dos movimentos. Uma cadência que o escritor uruguaio Eduardo Galeano comparou ao tango.
Essa transformação cultural deu origem ao conceito de La Nuestra (nosso jeito de jogar). O estilo valorizava a técnica individual e a alegria de atacar.
Nessa filosofia, o espetáculo e o entretenimento eram muitas vezes considerados tão importantes quanto o próprio resultado da partida. O estilo se consolidou a partir dos anos 1920 e atingiu seu apogeu nas décadas de 1930 e 1940.
No entanto, a era de La Nuestra acabou de forma traumática. Enquanto para o Brasil a Copa de 1958 projetou o brilhantismo de Pelé e Garrincha, para a Argentina significou a derrocada do estilo romântico.
Os argentinos foram humilhados com uma derrota por 6x1 para a Tchecoslováquia. O desastre expôs que o futebol argentino havia ficado para trás em termos de ritmo e organização tática.
Isso gerou uma forte reação no futebol do país. A classe e o talento individual passaram a ser vistos com desconfiança, e houve uma guinada em direção à disciplina, à preparação física e ao pragmatismo europeu.
Surgiram figuras como o treinador Victorio Spinetto, que entendia o futebol muito mais como uma questão de motivação e sacrifício do que de talento puro. Ele suscitava em seus times a catimba e o espírito de luta, elementos tão valorizados no futebol platense.
O discípulo mais notável da escola de Spinetto foi Osvaldo Zubeldía, treinador campeão das Libertadores de 1968, 1969 e 1970 com o Estudiantes de La Plata. O time de Zubeldía se preparava de forma meticulosa para as partidas. Todavia, também ficou infame pelo excesso de violência e por estudar a vida pessoal dos adversários para provocá-los psicologicamente em campo.
Segundo as críticas da época, o Estudiantes entrava em campo para destruir, sujar, irritar e negar o espetáculo, opondo-se a tudo o que o futebol argentino antes admirava. Essa mentalidade de vencer a qualquer custo levou a imprensa a cunhar o termo Antifútbol para descrever o estilo da equipe.
De certo modo, essa forma de jogar corresponde ao estereótipo que o brasileiro tem do futebol argentino até hoje. Mas como veremos, nem todo time argentino joga assim.



César Luis Menotti, o futebol romântico 🎨
Não tardou mais de uma década para que uma contra-reação ao Antifútbol fosse gestada na sociedade argentina. Torcedores e jornalistas aos poucos perdiam a timidez em demonstrar sua nostalgia pelos tempos de La Nuestra.
Esse sentimento foi correspondido no ano de 1973. Valendo-se de dribles, toques de primeira, lances de um-dois e jogadas de ultrapassagem, o time do Huracán venceu o Campeonato Metropolitano daquela temporada.
À frente daquela equipe um sujeito de cabelos longos, representante da boemia argentina e que havia jogado no Santos de Pelé em 1968: César Luis Menotti.
Menotti era a personificação da tradição romântica do futebol argentino. Ele acreditava que a eficácia não estava divorciada da beleza e que jogar para vencer não exigia o sacrifício do espetáculo em nome de um rigor tático defensivo.
Se uma parcela dos envolvidos com o jogo no país se preocupava apenas com o resultado, havia outra que enxergava o futebol como uma forma de expressão. O sucesso levou Menotti à Seleção Argentina. O treinador assumiu a equipe nacional após a Copa de 1974.
Seu grande feito veio em 1978. Na Copa do Mundo daquele ano, o treinador apostou em um 4-3-3 agressivo, com toques rápidos e liberdade para o talento individual.
Dois pontas obrigavam a defesa a se abrir. A equipe empregava uma forte marcação na saída de bola. Quando recuperava a pelota, atacavam em velocidade. O resultado foi a conquista do primeiro título mundial da Argentina.
Menotti dirigiu a equipe por mais quatro anos. Em 1982, com uma geração já envelhecida, mas que contava com Diego Maradona, amargou uma eliminação na segunda fase após perder para Itália e Brasil.
“Minha preocupação é que nós, os técnicos, não confisquemos o direito de fazer do futebol um espetáculo, em favor de uma leitura filosófica que não pode ser sustentada, que é a de evitar correr riscos. No futebol existem riscos, porque a única maneira de evitar correr riscos em um jogo é não jogando.” - Cesar Luis Menotti
Carlos Bilardo, o triunfo do pragmatismo ⚙️
Com o fim da era Menotti, a Argentina partiu para mais uma mudança de rumo. A bola da vez se encontrava na figura de Carlos Salvador Bilardo, treinador cujo estilo pode ser caracterizado como o oposto de seu predecessor.
Ex-meio-campista do Estudiantes de Zubeldía, Bilardo era a personificação do pragmatismo no futebol. Em sua visão, a única coisa que importava era o resultado, independente dos meios.
Como treinador, sua maior contribuição tática foi a criação do sistema 3-5-2. Esse desenho tático nasceu da necessidade de tirar o máximo de Maradona, um criador de jogadas de espírito livre, em uma estrutura coletiva defensivamente coerente.
Bilardo percebeu que, com o desaparecimento dos pontas tradicionais nos times adversários, ele poderia empurrar os laterais defensivos ao meio campo e fazer uma linha de três na zaga, com um homem de sobra. Como o time não perdia gente no meio-campo sobrecarregado, Maradona poderia jogar solto.
Sem a bola, a equipe asfixiava o adversário no centro e, ao recuperá-la, lançava contra-ataques rápidos para servir ao seu astro. O resultado foi a conquista da Copa do Mundo de 1986.
Durante aquela Copa, o inovador 3-5-2 estreou nas quartas de final contra a Inglaterra, partida em que Maradona anotou dois gols inesquecíveis: um em que dribla o time inteiro adversário desde o campo de defesa e outro em que desvia a bola com a mão para dentro da baliza. Um completo triunfo bilardista.
Em 1990, o treinador voltaria a comandar a Argentina em uma Copa. Aquela edição marcou ainda um episódio que exemplificaria a permissão de Bilardo para o jogo sujo. O treinador, que também é médico, é tido como o responsável pela água batizada que foi oferecida aos jogadores do Brasil no confronto das oitavas de final, causando tonturas em Branco, lateral brasileiro.
Os argentinos foram vice-campeões mundiais, alcançando duas finais seguidas. Bilardo, que considerava o segundo lugar um sinônimo do fracasso, deixou o comando nacional após o torneio.
“O rival também joga; por isso é preciso preparar todos os detalhes.” - Carlos Bilardo
“No futebol se joga para vencer. Espetáculos são para o cinema, para o teatro, futebol é outra coisa.” - Carlos Bilardo
O que importa mais, como você venceu ou ter vencido? 🥇
Embora representassem filosofias de jogo opostas, os dois treinadores mantinham um relacionamento cordial até o início da carreira de Bilardo na seleção. Em 1983, após a alternância no cargo, Menotti e Bilardo se reuniram para discutir o futuro da seleção.
Na ocasião, Menotti forneceu relatórios sobre alguns jogadores. Bilardo, no entanto, dispensou os conselhos e seguiu ao seu modo. Menotti reagiu publicando artigos críticos contra seu sucessor. Eles não voltariam mais a se falar.
Dos anos 1980 em diante, a guerra entre os dois passou pautar debates esportivos. Jornalistas e torcedores passaram a tomar lado na disputa entre os campeões de 1978 e 1986. O conflito de visões estava estabelecido.
Um pensava o futebol como um jogo imprevisível, o outro controlado. Um defendia o futebol arte, o outro o futebol de resultados. Um tinha uma visão romântica do jogo, o outro uma visão pragmática. Um dava mais liberdade individual ao improviso, o outro priorizava o rigor coletivo. Um defendia jogar bem para vencer, o outro fazer o que for necessário para a vitória.
Para Menotti, o jogador de futebol era um “intérprete privilegiado dos sonhos e sentimentos de milhões de pessoas”. Enquanto Bilardo dizia coisas como “no futebol só vale ganhar e nada mais. Do jeito que for, não estou nem aí”.


Menotti priorizava a ideia de que quando você assume o protagonismo da partida, tem mais chances de controlar o adversário e vencer. Seus críticos consideravam tola sua ideia de que “você pode ganhar, perder ou empatar, mas nunca renunciar às suas formas”, por contrariar o desejo de vitória de todo torcedor. No entanto, o que Menotti propunha era jogar bem com a bola, porque acreditava que essa era a maneira mais consistente de ampliar as chances de vitória, mesmo diante de adversários superiores.
O menottismo representa a elegância do futebol. Foi Menotti quem devolveu ao jogador argentino o orgulho de vestir a camisa da seleção e fez com que o país passasse a entrar em qualquer torneio como candidato ao título. E apesar das críticas, Menotti venceu porque era Menotti e porque sua equipe jogava exatamente como ele queria.
Bilardo está muito mais ligado à obsessão pelo trabalho, à constância, à atenção a cada detalhe, a não dar a menor vantagem ao adversário e a fazer tudo o que for necessário para alcançar o objetivo final de qualquer esporte competitivo. Seus críticos costumam resumir sua visão à ideia de ganhar de qualquer jeito. Essa interpretação, porém, confunde jogar bem com jogar bonito. E existem inúmeras maneiras de jogar bem.
O bilardismo, por vezes associado ao futebol reativo e ao contra-ataque, não tem necessariamente uma forma única de jogar. O objetivo é vencer. Com posse de bola ou sem ela, em um jogo apoiado ou vertical, atacando pelos lados ou pelo centro, explorando ou não a linha de impedimento. A ideia é que uma partida só é realmente merecida quando é vencida. Não existe outro critério para afirmar que um time mereceu ganhar. A equipe que venceu foi a que resolveu melhor o jogo. E nesse sentido, Bilardo foi um obcecado por controlar as variáveis do jogo e impor a ordem ao caos como base para o sucesso.


As profundas diferenças atingiram a opinião pública em geral. O Clarín, maior jornal do país, se tornou tradicionalmente mais menottista. Já La Nación foi mais associada ao bilardismo. Fora do esporte, expressões como bilardismo político ou bilardismo econômico, passaram a incorporar as análises das dinâmicas do poder. E os próprios políticos volta e meia tomam lado na disputa.
Para alguns torcedores, o tema se tornou uma questão relacionada a como cada pessoa encara a vida. Qual é a maneira correta de se posicionar perante o mundo? Em um país apaixonado por futebol, Menotti e Bilardo produziram respostas que extrapolam o campo.
“Jogo para vencer, tanto ou mais do que qualquer egoísta que acha que vencerá por outros meios. Eu quero vencer a disputa. Mas não me submeto ao raciocínio tático como a única forma de vencer. Ao contrário, eu acredito que a eficácia não se divorciou da beleza.” - Cesar Luis Menotti
“Vencer não é a coisa mais importante; é a única coisa. Ficar em segundo lugar não conta. Você sabe quem pisou nas Américas depois de Colombo? Eu não sei.” - Carlos Bilardo
Epílogo: e Scaloni? 🤔
Após o bicampeonato em 1986, a Argentina amargou 36 anos sem um título mundial. E a cada derrota, a discussão entre as duas formas de jogar reacendia. Nesse período quem mais se aproximou de reconduzir nossos vizinhos à glória foi Alejandro Sabella, treinador bilardista vice-campeão da Copa do Mundo do Brasil, em 2014.
Carlos Bilardo e César Luis Menotti voltariam a assumir cargos ligados à seleção, mas não como treinadores. Bilardo foi coordenador técnico da Argentina comandada por Diego Maradona na Copa de 2010.
Menotti, por sua vez, foi diretor de seleções de 2019 a 2024. Nesse período prestou grande apoio a um treinador interino que assumiria a função na seleção principal após o fracasso na Copa de 2018… Lionel Scaloni.
Como a história nos permite saber, La Scaloneta foi um sucesso total. O time venceu as edições de 2021 e 2024 da Copa América e a Copa do Mundo de 2024, alcançando o tricampeonato.
E na acirrada rivalidade entre menottistas e bilardistas, como se enquadraria o terceiro treinador campeão do mundo pela albiceleste? Scaloni seria o ponto de equilíbrio entre os dois?
Scaloni apostou em meio-campistas de jogadores técnicos e capazes de manter a posse, empregando o amor pela bola como uma das características do seu time. Ao mesmo tempo, mostrou uma grande variação de repertório durante a Copa de 2022. Foram 7 escalações diferentes em 4 formações distintas (incluindo o 3-5-2) naquela campanha, preparando-se conforme as características dos rivais.
Romântico ou pragmático? Scaloni é ao mesmo tempo reivindicado por ambos os lados da referida guerra ideológica do futebol argentino, mas talvez seu estilo não seja nenhum dos dois, e sim o da pacificação.


César Luis Menotti faleceu em 2024, aos 85 anos. Carlos Bilardo está com 88 anos. Os dois se enfrentaram apenas uma vez como treinadores. Em 1996, o Independiente de Menotti bateu o Boca Juniors de Bilardo por 1 a 0 na Bombonera.








