Qual é a grande skill do futuro? 🔮
Quando tudo parece artificial, criar segue sendo um gesto humano.
Responder a essa pergunta seria uma audácia sem tamanho da minha parte, mas refletir sobre ela é um convite que faço para pensarmos um pouco sobre o que nos espera. Sempre escreverei com o olhar de alguém criativo, e talvez isso me permita transitar por diferentes searas e trazer uma visão por vezes distante do mainstream.
Fala-se tanto de inteligência artificial que a conversa já se tornou, em certa medida, irreal. Nos últimos anos, vivemos uma enxurrada de inovações como talvez nunca tenhamos vivido enquanto humanidade. Até 2023, havia um aumento significativo no interesse por programação, por linguagens como Python. Afinal, entendíamos, naquela época, que esse era o futuro. Reportagens estampavam essa crescente busca: “Procura por carreira de programador cresce 30% no Brasil”.
De fato, o Fórum Econômico Mundial previa a criação de quase 7 milhões de novos postos de trabalho no setor de tecnologia em 2022. No entanto, essa corrida perdeu ritmo logo na sequência. No início de 2024, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, ajudou a romper essa lógica ao afirmar, durante a World Government Summit, em Dubai, que as crianças não deveriam mais aprender programação, mas deixar isso para a IA. Isso em um mundo que já tinha ChatGPT, mas ainda não conhecia, de forma tão popular, a dimensão do que estava por vir.
Antes mesmo de Jensen, em 2023, Geoffrey Hinton, um dos mais antigos e renomados pesquisadores da área de inteligência artificial, surpreendeu a plateia no Collision ao afirmar que os empregos que sobreviverão à IA serão aqueles altamente adaptáveis ou que exigem algum tipo de destreza física. E citou os encanadores como exemplo. Ou seja, o encanador seria o profissional do futuro?
Os anos passaram, as IAs se tornaram ainda mais impressionantes, o mercado de tecnologia cresceu, surgiram novas inteligências realmente fazendo o que Jensen havia sugerido, inclusive programando, e nós, seres humanos, mal nos demos conta de que estamos em uma corrida maluca da qual sequer sabemos o caminho, a linha de chegada ou se realmente deveríamos estar correndo. Tanto que qualquer coisa escrita hoje sobre a última versão de alguma IA provavelmente estará datada já na semana que vem.
Em meio a tudo isso, tenho me questionado muito sobre a pergunta que dá título a este texto. Como criativo, vejo muitos dos nossos pares destinarem à IA aquilo que eu entendia como algo exclusivamente nosso: a criatividade. De fato, ela pode, e deve, ser uma grande aliada em nossos processos, aperfeiçoando, aprimorando, corrigindo ou até operacionalizando parte do trabalho criativo.
O que não consigo compreender é quando delegamos a ela o próprio centro da criação, ou até criamos ferramentas sob a promessa de “democratizar a criatividade”, abrindo mão justamente daquilo que sempre foi o diferencial de publicitários, arquitetos, designers, escritores, poetas, músicos, artistas e tantos outros seres criativos: o ato de ter ideias, de criar algo que nunca existiu, de unir referências para fazer nascer o novo.
Acredito tanto que esse potencial é humano que não tenho receio de concorrermos com as máquinas. O problema, para mim, não está apenas em nós, mas também em quem consome o que criamos. Quando nós mesmos chancelamos e vendemos a ilusão de que a IA é capaz de fazer tudo isso sozinha, o mercado passa a acreditar que ela realmente é. Até porque grande parte das pessoas não tem repertório para julgar o que é bom ou ruim, o que é correto ou não.
Se o Hospital Israelita Albert Einstein criasse uma IA pública capaz de diagnosticar e receitar medicamentos ao público leigo, será que boa parte da população preferiria o médico do hospital do bairro ou a IA de um hospital renomado? O mesmo valeria se o Mattos Filho, um dos mais respeitados escritórios de advocacia do país, lançasse uma IA para redigir contratos e defender juridicamente seus clientes. A confiança na instituição, muitas vezes, passaria por cima da reflexão sobre os limites reais da ferramenta.
John Hegarty, fundador da BBH, defende que a IA é sobre reconfiguração, não sobre originalidade. Ela não sonha. Não imagina o que não aconteceu. Da mesma forma, Tor Myhren, vice-presidente de Marketing Communications da Apple, afirmou que o toque humano é o nosso superpoder. Não à toa, a Apple investe em uma narrativa mais humana, como seu novo vídeo de intro, enquanto marcas de luxo vêm apostando cada vez mais naquilo que é feito por pessoas reais, ilustradores e artistas.
Fred Gelli, CEO da Tátil Design, também trouxe muito bem, em um de seus textos recentes, a importância do tátil, dos sentidos que vão além da visão, justamente aqueles que a IA ainda não consegue replicar e que podem nos ajudar a distinguir o que é real do que apenas parece ser.
Não podemos, na ilusão de estarmos inovando e revolucionando o mercado, vender também a ilusão de que todas as respostas para aquilo que não sabemos fazer estão nas IAs. O mundo ainda precisa muito do ser humano. E longe de mim ser contra ela. Cada vez mais, buscamos maneiras de usá-la de forma mais inteligente. Sempre para potencializar bons profissionais, nunca para substituir aquilo que só eles podem oferecer.
Se o futuro é ancestral, como diz Ailton Krenak, talvez devamos seguir o provérbio africano: “Quando não souberes para onde ir, olha para trás e saiba pelo menos de onde vens.” Viemos de pessoas reais, que sonham, imaginam e criam aquilo que ainda ninguém pensou, sem fórmula pronta e sem lógica previsível. Talvez seja justamente essa a grande skill do futuro.





