Somos capazes de criar novos heróis? 👑
Em um tempo que julga tudo, ainda sabemos reconhecer grandeza?
Eu me criei ouvindo meu pai falar de heróis. Senna, para ele, carregava mais do que a genialidade de um piloto: carregava a sensação de que o Brasil ainda podia ser grande em alguma coisa. Taffarel era lembrado como “o melhor goleiro de todos os tempos”, quase uma certeza familiar repetida sem precisar de estatística. E Dunga, capitão da Seleção de 1994, tinha ainda um orgulho particular: era o capitão colorado que levantou a taça da Copa do Mundo.
Cresci entendendo que heróis não moravam apenas nos livros de história. Eles apareciam na televisão aos domingos, nas conversas de família, nas músicas que tocavam no carro e nas lembranças de um país que parecia precisar de símbolos para continuar acreditando em si mesmo.
Mais tarde, na faculdade, meus heróis trocaram de uniforme. Saíram dos gramados, dos autódromos e dos palcos, e passaram a habitar agências, campanhas, livros e ideias. Washington Olivetto, Bill Bernbach, David Ogilvy, Marcello Serpa e tantos outros viraram nomes quase mitológicos para quem acreditava que uma boa ideia também podia mudar a forma como o mundo olhava para alguma coisa.
Na música, os heróis eram outros: Renato Russo, Cazuza, Caetano Veloso, Belchior, Elis Regina. Gente que parecia cantar antes da gente sentir. Gente que dizia o que muitos ainda não tinham coragem de formular.
Em cada esfera da vida, a gente constrói seus altares. No esporte, na música, na arte, na política, na publicidade, no campo, na família. Sempre existe alguém que ocupa esse lugar estranho entre a admiração e a fantasia. Alguém que vira medida, espelho, norte e saudade.
É claro que os heróis têm uma relação profunda com a nostalgia. Talvez seja impossível existir herói sem distância. O tempo funciona como um filtro generoso: arredonda as arestas, silencia contradições e preserva aquilo que convém à memória coletiva. Por isso, quase sempre olhamos para trás quando falamos de grandeza. Os heróis parecem pertencer a um tempo anterior ao nosso, como se o presente ainda fosse barulhento demais para permitir qualquer canonização.
Mas a pergunta que me inquieta não é se sempre fomos nostálgicos. A pergunta é outra: ainda somos capazes de criar novos heróis?
Vivemos em um tempo em que tudo é visto, gravado, arquivado, editado, julgado e revisitado. Nada desaparece. Uma frase infeliz não morre mais no ar. Uma opinião antiga pode ressuscitar como sentença. Uma mensagem privada pode virar documento público. Um erro pode deixar de ser erro e passar a ser identidade.
Por um lado, é bom que seja assim. Durante muito tempo, abusos passaram despercebidos, violências foram naturalizadas e preconceitos foram tratados como “coisa da época”. Não há futuro possível se continuarmos aceitando tudo em nome do talento. Nenhuma obra deveria servir de salvo-conduto para qualquer tipo de covardia.
Mas talvez exista uma diferença importante entre exigir responsabilidade e exigir pureza. Se formos revisitar a história dos nossos heróis com o crivo moral absoluto do presente, talvez sobrem poucos. Muito poucos.
Mozart, por exemplo, atravessou os séculos como sinônimo de genialidade. E, no entanto, quando suas cartas foram revisitadas, como vimos em um das últimas edições do Boletim Pirado, encontramos também um Mozart debochado, escatológico, provocador e muitas vezes obsceno. Nas correspondências com sua prima Maria Anna Thekla, chamada por ele de Bäsle, aparece um compositor muito menos celestial do que a imagem que a posteridade construiu.
Será que Mozart sobreviveria ao Instagram? Será que seria tratado como gênio ou transformado em corte de quinze segundos no TikTok? E se fizéssemos o mesmo exercício com todos os nossos ídolos? Se tivéssemos acesso aos grupos privados, aos áudios, às piadas, às inseguranças, às vaidades e aos pensamentos mais tortos de cada um deles, quantos ainda restariam de pé?
Talvez o problema não seja descobrir que os heróis são falhos. O problema é a nossa dificuldade de aceitar que alguém possa ser falho e, ainda assim, ter produzido algo grandioso. Queremos referências humanas, mas exigimos delas uma biografia desumana. Queremos verdade, mas punimos qualquer vestígio de contradição.
A sociedade sempre precisou de heróis, não apenas para admirar alguém, mas para organizar seus próprios desejos. Heróis dizem muito menos sobre quem eles são e muito mais sobre o que uma época decide valorizar. Senna virou herói porque, em um Brasil machucado, carregava disciplina, coragem, fé e bandeira. Os artistas dos anos 70 e 80 viraram heróis porque cantavam em meio à repressão, à redemocratização, à AIDS, à desigualdade e ao desencanto. Os criativos da publicidade viraram heróis porque provaram que inteligência, linguagem e cultura podiam construir marcas e atravessar gerações.
Heróis não nascem apenas do talento. Nascem também da necessidade coletiva. E talvez a nossa grande tragédia seja esta: continuamos precisando de heróis, mas já não sabemos mais construí-los.
Substituímos admiração por audiência. Referência por influência. Legado por engajamento. Coragem por posicionamento. Obra por performance. No fim, talvez estejamos cercados de pessoas famosas, mas pobres de figuras realmente admiráveis.
Não se trata de passar pano para ninguém. Podemos, sim, derrubar falsos heróis. Devemos derrubar os que usaram talento como escudo para ferir, explorar ou humilhar. Mas talvez também precisemos parar de destruir qualquer possibilidade de grandeza no instante em que descobrimos uma rachadura.
A pergunta, então, não é apenas se somos capazes de criar novos heróis. A pergunta é se somos capazes de criar uma cultura que permita a alguém ser grande sem precisar ser perfeito. Uma cultura que cobre responsabilidade, mas não exija santidade. Que reconheça a importância do julgamento, mas não transforme o julgamento em espetáculo.
Como diz a música, “os meus heróis estão calados nessa hora, pois já fizeram e escreveram a sua história”. E talvez seja justamente por isso que a pergunta fique ainda mais incômoda: estamos deixando alguém escrever a história do presente?
Talvez existam novos heróis por aí. Em silêncio. Em construção. Errando, acertando, tentando, caindo, voltando. Talvez eles não se pareçam com os antigos. Talvez não levantem taças, não componham sinfonias, não façam jingles memoráveis nem cantem hinos de uma geração.
Talvez estejam apenas tentando fazer a coisa certa em um tempo que transforma qualquer gesto em tribunal. E talvez o verdadeiro desafio da nossa geração não seja encontrar novos heróis. Talvez seja reaprender a olhar.




